Na batida dos Beats: o Nobel de Dylan

Originalmente publicado em Yellow
(27/10/16)

Mais do que um jogo de palavrasna batida dos Beats é minha tentativa de casar música e literatura aqui no Yellow e instigar vocês a conhecer alguns dos autores que inspiraram Bob Dylan, o inusitado vencedor do prêmio Nobel de Literatura.

Inusitado por que?

Como disse aqui anteriormente, Dylan é o primeiro músico a receber o prêmio de Literatura. E, apesar de já ter publicado livros, a nomeação veio por ter “criado uma nova expressão poética na tradicional canção americana”.

nobel-dylan

Há quem tenha achado justo e quem não. Eu demorei um pouco para concluir o que penso a respeito, mas, no fim das contas, estou no grupo dos que prefeririam que outro nome houvesse recebido a honraria.

Bom para a música. E para a Literatura?

Num primeiro momento, cheguei até a pensar que isso seria positivo no sentido de levar pessoas a escutar as músicas do cara. Caso isso aconteça, realmente é um ganho. Para a música.

Há chances de que ambos os movimentos – musical e literário – se beneficiem disso? Claro. Há informações de que edições da biografia de Dylan estejam esgotadas no Brasil e de que editoras já planejam novas edições para os já mencionados livros escritos pelo músico e outro que apresenta todas as suas letras.

Parece promissor, certo? Mas não quero que pare por ai. Assim como sempre recomendo que vocês, queridos leitores, busquem as influências musicais dos artistas que gostam de ouvir, fiz este post com o objetivo de apresentar influências literárias de Bob Dylan.

A geração Beat e a poesia de Dylan

Obviamente, estou fazendo um recorte. Dentre os vários nomes na estante de Dylan – aqui há uma lista de sete autores relevantes – meu destaque vai para três dos mais importantes autores, símbolos da geração Beat: Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs.

Os beats foram uma geração de artistas americanos (final dos anos 1950, início dos anos 1960), sobretudo escritores e poetas que inspiraram um fenômeno cultural e inovaram a escrita. Estão entre as influências para várias gerações, incluindo para/dentro dos movimentos hippie, punk e o folk  de Bob Dylan.

kerouac-books

Comecemos por Burroughs (1914 – 1997), o pai da turma e, possivelmente, o nome mais conhecido musicalmente em função de entusiastas como Kim Gordon, Kurt Cobain, Patti Smith… e das diversas participações e parcerias feitas: álbuns, músicas recitadas, aparição em clipe, etc. Há uma série de provas de sua influência na cultura pop – não só em meio musical – e o que deu início à tudo isso foram suas obras, que lhe apresentaram para o mundo. As mais famosas são Naked Lunch (Almoço Nu) e Junkie.

Dylan e Burroughs se conheceram pessoalmente e a escrita do beat teve influência na linguagem do músico, que foi estava se tornando mais aberta, menos linear, mas vanguardista.

Passemos para Kerouac (1922 – 1969), símbolo máximo da geração e uma boa porta de entrada. Ao menos, foi (tem sido) para mim. On the Road é sua obra mais famosa e responsável por ter feito Dylan fugir de casa. Há uma adaptação para a obra na Netflix. Procurem por Na Estrada.

Também apontado como “o rei dos beats” – algo que lhe causou raiva e tormenta pelo resto da vida -, Kerouac foi responsável pela criação de uma escrita singular, influenciada pelas sensações transmitidas pelo jazz, pelo bop. Um estilo que guiaria uma transformação no estilo do próprio Dylan.

Juntos, esses dois beats escreveram um dos títulos favoritos da minha estante: E os Hipopótamos foram cozidos em seus tanques. Uma leitura leve, fácil e rápida. Quando se trata de Dylan, porém, o foco é outro…

Precisamos falar sobre Ginsberg

A maior inspiração beat de Dylan. Foi após ter contato com o trabalho de Allen Ginsberg (1926 – 1997), já após o high school e com seus 18 anos, que Bob Dylan começou a escrever poesia.

Posteriormente, já no início dos anos 60, os dois se conheceram e desenvolveram uma relação de amizade, admiração e influência mutua. Há uma infinidade de textos no maravilhoso mundo da internet que vão desde ilustrar essa parceria à indicar que o relacionamento entre eles era visto como de pai e filho ou de irmãos. Ginsberg era, claramente, o mais velho – tanto em idade quanto por sua posição de mentor.

Ginsberg identificava traços de sua poesia no trabalho de Dylan; o mesmo espírito. E dizia que o amigo tinha o dom de devolver a poesia aos homens através de sua música. Algo que concorda com a justificativa para o Nobel.

dylan-ginsberg

A parceria rendeu vários frutos. Por exemplo, a participação de Ginsberg em Renaldo & Clara, um drama musical escrito e dirigido por Dylan. E o álbum de canções feitas em colaboração pela dupla. Lançado originalmente em 1983, First Blues tem Ginsberg nos vocais e Dylan no violão, gaita e backing vocal.

Antes disso, o sonhador Ginsberg já havia ganhado notoriedade com Howl ou ‘Uivo’, seu poema mais famoso. Cercado de polêmicas por seu teor obsceno, foi responsável por alavancar Allen para além dos pequenos círculos literários em que era conhecido. O poema foi lançado apenas cinco anos antes do primeiro álbum de Dylan. (Há, também disponível na Netflix, um filme autobiográfico de mesmo nome).

De streaming para streaming, é preciso mencionar que há áudios desses três beats na internet, inclusive no Spotify. E foi assim que Ginsberg se tornou bastante acessível para mim. Recomendo que escolham o áudio e acompanhem com o texto.  Por onde começar? Vou sugerir America: o primeiro que ouvi/li dessa forma.

Ainda há muito a ser dito sobre a geração beat, suas influências e obras. Por outro lado, o que não foi dito (ainda) é a resposta de Dylan ao prêmio que desencadeou todo esse post…

O silêncio* de Bob Dylan, o “mais notável” beat 

I came out of the wilderness and just naturally fell in with the beat scene
– Dylan, sobre ter naturalmente se encontrado na cena beat

Desde que recebeu o Nobel de Literatura, Dylan não se pronunciou. Esse silêncio tem várias interpretações, da arrogância ao protesto. Talvez ele não queria o prêmio e poderíamos especular outros motivos aqui…

Se hoje a Academia reconhece Dylan, ontem ela não se esforçou para se aproximar dos beats. Houve uma resistência grande para reconhecer esse movimento cultural/social e sua força. As temáticas polêmicas do grupo e sua postura, consideradas tão “anti-academia” podem ser apontadas como razões. E não é que tenha melhorado muito desde então… Fato é que, bem ou mal, um beat (ou quase) recebeu a honraria máxima da Literatura mundial.

Aos 75 anos, Bob Dylan já recebeu também Grammys, Oscar,Globo de Ouro e uma citação especial do Pulitzer. Necessário ou não, justo ou não, espero que o Nobel abra novas portas para a sua música e obras e, sobretudo, para as obras daqueles que o inspiraram.

*Dylan finalmente falou sobre, aceitando o prêmio.

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